10/11/2011

A arte viajante.

Li esse texto e apesar de ser de um amigo não tem nada envolvendo favores ou pedidos. Resolvi dividir com vocês porque é além de bonito, sincero. O autor é o músico da banda paraense Arsenal Vil, Raphael Guimarães.




O “Cinema circo”

Uma tenda de oito por dez metros, equipamentos de projeção, cinemascope de 35 milímetros, tela, som estéreo, bancos, cadeiras e muitos, mas muitos olhares curiosos e atentos a todo e qualquer movimento. 

Esse é o cotidiano de um cinema itinerante, levar som, imagem, diversão e cultura ao mais carente sonhador da roça e arrancar risos, aplausos e lágrimas de quem muitas vezes se vê retratado nas películas exibidas na modesta tela do cinema andarilho.

Esse cinema ainda não pode oferecer conforto e qualidade audiovisual de um “blockbuster” para o público, mas as escolhas dos filmes são de qualidade inquestionável. A diversidade de temas abordados espanta a pacata e tediosa rotina de uma cidade órfã de sétima arte. Amostras de filmes são muito raras por aqui, o que faz com que qualquer pessoa mais curiosa venha junto com o calor dos mais interessados, para não ficar de fora do acontecido. Quem tem sorte de estar presente, provavelmente terá assunto e histórias para se lembrar pelo resto da vida.


É a arte de volta ao seu principio, promovendo reflexões e entretenimento para olhos devoradores de imagens, de forma gratuita, sem interesses financeiros, mas com uma única grande ambição, a de tornar possível ao menos por um momento, todos os sonhos de uma cidade. E são esses sonhos que movem esse local. Os dramas, romances e aventuras exibidos no projetor, são meros coadjuvantes perto da vida vivida aqui, a grande estrela da noite. O itinerante projeto cinematográfico partirá para a sua próxima parada repleto de experiências únicas de relação com um público acolhedor e carente. Todos ganham com isso, exceto a cidade, que mesmo agraciada com o projeto, estará sempre perdendo a oportunidade de dar ao público momentos de fantasia e descontração.

Mesmo sendo uma situação critica, a ocasião não retira o sorriso da criança mais inquieta e a esperança no olhar do idoso que observa sua vida passar diariamente pela varanda. Também não deixa de ser um prato cheio para os casais apaixonados de todas as idades, que podem enfim sonhar com romances perfeitos, com direito a trilha sonora. Mas quando o picadeiro for desarmado, os trapezistas se trocarem e os malabaristas pararem de tecer seus truques estonteantes, a única trilha sonora que irá reger os dias da população local, será a do silêncio e da saudade.

É uma pena que não seja assim o ano todo. É dia cinco de novembro, dia nacional do cinema. Dia de abraçar o pai que só visita uma vez no ano e deixar de lado os rancores de uma relação distante.

 Raphael Guimarães

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