15/12/2011

Filhos de Empregada, o tempo poderia voltar.


- Qual é o nome desse disco?
- Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
- É uma banda?
- É.
- E os Beatles?
- Estão na banda.
- Mas de quem é o disco?
- Dos Beatles.
- Como assim?

Eu sempre rio muito quando penso nisso ou quando lembro do David Bowie como Ziggy Stardust. As coisas que realmente parecem não fazerem sentido são no fim as que mais fazem, pelo menos musicalmente falando.

"Mas quem são esses meninos de cueca colorida e esses bigodes estranhos?", eu me perguntava.

Pavement era demais pra minha cabeça assim como Filhos de Empregada também.

Tive que fazer a viagem musical de uma menina que só ouvia Chico Buarque até chegar n'uma garota que gosta de David Bowie, para finalmente dar na telha de voltar a ouvir Filhos de Empregada e perceber que desperdicei os vários shows que vi deles.

Filhos de Empregada era uma banda do caralho, exatamente essa palavra, não tem outra que defina melhor (risos) e eu era no minimo muito sem noção musical para sacar isso.

Eu desejaria que por alguns instantes o tempo voltasse e com a percepção de hoje eu estivesse de novo de frente para aquele pequeno palco do Café com Arte e uma amiga minha olhasse pra mim e falasse: vamos sacar essa banda Nique, me falaram que os caras fazem umas maluquices no palco e esse nome é bem legal.

Mas infelizmente não existe um portal mágico ou um carro que viaje no tempo que nem o do Martin McFly.

Não vou de forma alguma dizer que não apareceu mais nenhuma banda legal de lá pra cá, esse tipo de discurso eu acho desnecessário. Porém uma coisa não posso deixar de dizer, faz falta uma banda legal (ainda continuo gostando dessa palavra) como era a Filhos de Empregada.


Um psicodelismo que me fazia rir sabe?! Eu esquecia um pouco da vida chata por uns momentos. Comecei a gostar deles de verdade no final de 2009, e desde lá sempre vira e mexe tô ouvindo. Tenho minhas favoritas apesar de simpatizar com todas.

"Guangues de Portugal" acho que tem uma levada muito gostosa, e consigo perceber que apesar de toda a mistura que eles faziam tinha algo de muito definido no som deles, uma vontade de desconstruir a música da qual se está acostumado a ouvir. Essa música em especial me lembra Sonic Youth, pois tem ali um experimentalismo que flerta com o grunge.

Acho que a primeira vez que os vi no palco pelo visual deles esperava um som meio dos Stones Roses (risos), sei lá porque exatamente pensei isso. Talvez porque no dia o vocalista tava com uma camisa que me lembrou o Ian Brown.

A subjetividade das músicas da Filhos de Empregada pode ser facilmente interpretada como um ruído na comunicação artista e ouvinte, mas o contrário acontece.
Já que a arte deles era feita de barulhos estranhos, letras desconexas e mudanças de ritmos destoantes, isso nos diz mais do que conscientemente percebemos. 

Está em toda essa subjetividade uma forma de reunir elementos da vida do homem que está um pouco incomodado com os ruídos do mundo, que quer mesmo se expressar de forma desconexa e não quer formular algo óbvio e acabado. Ele quer descontruir tudo pra construir de qualquer jeito e vê como soa.

Isso me lembra minha infância. Eu odiava quando alguma garota da minha sala dizia: ah você não pode encaixar esse lego aí, tem que ficar igual como tá na figura. 

Quem fez os manuais, inclusive os da música eram humanos. Por que outros humanos não podem construir seu próprio e desconexo manual?! A música dá essa liberdade, e os Filhos de Empregada soubiam usá-la muito bem, pena que a banda acabou.

Mas por qual motivo a psicodelia e o alternativo incomoda tanto? Talvez eu particularmente me sentia incomodada porque estava uns anos no passado impregnada por conceitos muito comuns de felicidade e rotina.

Tudo que saísse daquele conceito "Chico Buarque de ser" cantando "Carolina" era algo que me agredia. Talvez Filhos de Empregada fosse uma banda para agredir, agredir no sentido de desconstruir coisas e conceitos impregnados por uma sociedade que não se choca com gente passando fome, mas se choca com gente fazendo arte.

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