15/12/2011

Johnny Alf. "Basta a mente firme pra não escorregar"

"Hoje tudo fala, hoje tudo diz, hoje se consegue o que ontem só se quis, hoje o nosso samba sabe se mostrar, hoje a tropicália veio se formar. Tudo se renova, tudo quer mudar, bom que se acostume aquele que estranhar. Se o homem tem o arbítrio pra pensar basta a mente firme pra não escorregar".
Eu sei que vão dizer que sou velha, que gente da minha idade é pra tá ouvindo qualquer outra coisa moderna, tudo bem, eu ouço, vocês sabem e estão cansados de me ver nessas festas de eletro punk cyber não sei o quê mais, que acontecem aqui em Belém (risos).

Mas tem uma moça caseira dentro de mim e toda trabalhada na malemolência, que se amarra em um barzinho com coxinha de dois dias e uma pinga pra rebater.
Sou um broto legal e gosto de Johnny Alf (não continue lendo sem clicar aqui).

Johnny Alf chegou na minha vida ano passado, infelizmente no mesmo ano que morreu, com 80 anos e sem família, morava n'um asilo em Santo André. Porém muita gente que amava a música dele se considerava parte da família.

Cantor, músico e pianista. Tudo começou com as aulas de piano de Geni Borges, amiga da mãe dele. Primeiro Johnny Alf aprendeu a tocar música erudita, mas em pouco tempo se rendeu a música popular. Ele ouvia muito Cole Porter, George Gershwin e Nat King Cole.

Cole Porter e Gershwin não fazem muito meu estilo, apesar de soarem de forma genial. Acho que muito da música de Johnny Alf tem influência mesmo do Nat King Cole, que você pensa que não conhece assim de nome, mas já ouviu muito quando tava apaixonado.

Lembro que quando eu era novinha tinha poucos cds e já tinha insônia (não tinha computador, muito menos internet) então eu ficava deitada pra dormir ouvindo rádio até tarde, e sempre tocavam músicas do King Cole, acho que deve ter sido o mesmo que aconteceu com o Alf, essa dúvida é mais uma dica que preciso ler o livro que o Ruy Castro escreveu sobre ele (alguém? risos). Então, no meu mundo de Alice imagino que o Johnny Alf ficava tão emocionado quanto eu ouvindo "When I fall in love".

Os gostos do artista refletiam mesmo uma coisa que acontece com as pessoas que amam cinema. Ele ia ver os filmes americanos com trilhas sonoras lindas e os musicais tocavam a alma de Johnny, que voltava pra casa, sentava no piano e criava coisas maravilhosas. Quantos filmes já não deram ideias fantásticas para tanta gente talentosa, não é mesmo?! Uma arte dialoga com outra n'um ciclo infinito de gostosura.

Então, tem um álbum do Alf que acho lindo, lindo de ouvir mil vezes e não cansar. Se chama "Nós", é com toda certeza para ouvir com um par e dançar colado. Perceberam como eu sou uma velha aprisionada no corpo de uma menina nova?! (risos)

O "Nós" tem faixas maravilhosas como "O que é amar", "Nós", "Acorda, Ulysses" e "Um gosto de Fim".

"Bobagem eu ficar chorando se a dor já faz parte de mim, bogagem eu deixar morando no meu rosto um gosto de fim, já que as portas são poucas e os sonhos são demais"

Não dá pra não ouvir essas palavras e passar imune a elas. Música boa pra mim é aquela que cutuca a alma, faz pensar e é feita com cuidado. Dá pra perceber o cuidado que Johnny Alf tinha com a arte que produzia. Olho para as fotos dele e me dá uma vontade de chorar, ainda não sei lidar com a morte dos meus ídolos. Mas felizmente eles se tornam imortais em obras e dentro do coração da gente.

"Trago os olhos embebidos mas meu pranto vai secar"

Só não sei se o meu vai secar, por saber que Johnny Alf nunca mais vai sentar de frente para um piano e fazer o que ele sabia fazer de melhor, emocionar.

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