30/12/2011

Uirapurú Mirim, a infância e o carimbó.

Overdose de fofura. Não imaginei que o álbum do "Uirapurú Mirim" ia me dar tanda felicidade. Fui comprar o cd do Jards Macalé e vi esse álbum lá na Saraiva, n'uma prateleira bem escondida.

Uma capinha que lembra os quadros de juta que minha vó Celina pinta lindamente. Senti uma enorme falta dos meus avôs e dos meus pais, lembrei muito da minha infância.
Toquei na capa do álbum e minhas mãos (acho) deram um jeito de se comunicar com meu cerébro, e pensei: tenho que ouvir.


Depois de ter ficado só com cinco reais no bolso, cheguei em casa bem feliz com cds novos, mas demorei cerca de um mês para ouvir o do "Uirapurú Mirim". Sempre tenho isso de achar que certos álbuns tenho que esperar um pouco para ouvir, um sentimento que envolve clima e talvez uma frescura particularmente minha.

Então chegou o dia. Coloquei o cd no computador.

Um carimbó gostoso, nada de tão diferente de outras coisas que já ouvi. Até que as vozes apareceram.

É claro que é no minimo curioso.

Crianças de vozes diferentes, com um jeito de quem quer crescer rápido. É fato, os mirins tomam todo o espaço do nosso coração rapidamente.

O Carimbó nos fala sobre um povo, ao qual pertencemos, que canta e dança sua herança cultural e incorpora a elas suas vivências. É maravilhoso poder encontrar músicas dos Mestres das Guitarradas na internet ou ouvir o Uirapurú Mirim na rádio uol por exemplo. A web consegue levar as músicas da Amazônia para além da própria Amazônia.

Precisamos parar com o mito que o estrangeiro vem comer nossa cultura e a destruir, só destruímos nossas convicções e identidade se quisermos. Nada mais bontio que o "se fazer conhecer", ainda mais quando existe talento envolvido. É mesmo verdade que nós brasileiros nos conhecemos muito pouco, mas não é tarde para pular a etapa do estranhamento.

"Oh que baiana bonita, eu nunca vi outra igual, prepara o quitute pra nós jantar"

"Menina dos cabelos lisos, você que me faz sonhar, o seu jeito carinhoso, o brilho do seu olhar"


"Somos paraenses de onde nasceu nossa vó"

Existe no Carimbó uma sensualidade natural, uma conquista bonita que envolve o amor que nasce de forma surpreendente. Mas além de toda essa paisagem de amor existe uma inocência de sorriso leve e de um povo que ama sua cultura e tem orgulho de suas raízes. Porém alguns paraenses não se sentem parte dessa manifestação. 

Cresci em uma realidade urbana, ouvindo rock e músicas de outras regiões, mas minha vó por parte de mãe era do interior, tratava de peixe em jirau, pescava. Já meu avô era um homem trabalhador, construía barcos e adorava acompanhar o que acontecia no mundo pelo rádio.

Lembro que na casa da minha vó sempre tocava muito carimbó, e eu não entendia na época porque ela gostava tanto, hoje os dois não estão mais aqui, mas eu entendi que para eles o carimbó expressava o cotidiano, os amores, o trabalho ou o banho de fim de tarde no igarapé, só pra matar o calor.

Quando ouço carimbó penso neles e como criaram 14 filhos, que hoje são professores, jornalistas, advogados... o carimbó tem gosto de saudade pra mim, e pra você tem gosto de quê?

Ouça na rádio uol o Uirapurú Mirim clicando aqui.


4 comentários:

  1. Em breve estas músicas estarão também num bregapop mais próximo de vc... rsrsr

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  2. ahahaha se isso ajudar a fortalecer o carimbó não vejo problema José

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  3. Monique, o CD é lindo. Comprei quando estive com o grupo, em Marapanim. O texto tb tá ótimo.

    Abs, Felipe

    facebook.com/pauecorda

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  4. Obrigada Felipe, esse cd me acompanha sempre :)

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