20/01/2012

Muito molho, por favor!


Nessas horas que penso: porra, Adorno tava certo quando disse que a arte produz enigmas. No mesmo instante que diz, ela oculta alguma coisa e assim oferece a portunidade da gente pensar.

A cena roqueira atual da nossa Belém nos revela produções com esse estilo, conectadas com o universo musical além das próprias fronteiras fisicas. Bandas formadas por pessoas que ouvem muita música, leem bastante, veem muitos filmes, fotografam, escrevem ou desenham. O músico é mesmo um ser conectado não só com a música mas com outras artes, mesmo que essa ligação não seja algo consciente.

A música é um produto cultural que precisa acima de tudo nos oferecer reflexão, sobre algum aspecto de nossas vidas, isso não implica em que toda produção deva ter temas políticos, se bem que até o amor é político de certa forma (risos). Mesmo que o tema seja simples, é preciso que a sonoridade seja de qualidade para complementar a mensagem.

Por exemplo, se você ouve “Onde está meu mojo” da Molho Negro, que diz: “(...) furar o sinal vermelho e sair a mais de mil, fazer caras e bocas, pose de rock star e todas as meninas eu iria conquistar”, tem ao fundo um som pesado de guitarras com aquele jeitão sujo do hardrock, riffs que nos lembram filmes com sequências de corridas automotivas, roqueiros e aquela ideia do rock como a maneira de ter mulheres e aventuras. Esse é o poder de uma boa sonoridade, ela serve de linguagem complementar para uma letra simples. As duas juntas criam imagens ou produzem sensações no ouvinte.

Quando ouvi os meninos da Molho Negro, senti a mesma sensação quando ouvi “Brothers” do The Black Keys, “Horehound” do The Dead Weather e “Action Pact” do Sloan. Aí meu cerébro e meu coração mandaram a mensagem para os meus ouvidos: gostamos.

Além do rock empolgante e das letras que misturam a atitude hardrock com o poder do powerpop (que gruda mesmo), a banda tem uma identidade visual de bom gosto, disponibilizou o EP na internet antes do lançamento oficial, o que já mostra o quanto eles entendem que a maneira do artista vender sua música mudou. Não me apedrejem quando falo na música como “produto”, essa palavra tem um peso ruim, mas não o é se pensarmos nela de forma consciente.

“(...) perdeu o tempo com besteiras que já nem quer mais, e é foda aceitar agora, depois de tanto tempo você está fora de moda”.

Assim como o sonho de ser rock star, existem outros sonhos, na verdade cada um tem o seu. Às vezes quando volto para casa fico olhando pelo vidro embaçado do ônibus e imaginando se os meus um dia vão se realizar e se eles vão ser também o sonho realizado de outros.

Pra mim sonho gostoso é aquele que deixa um rastro de felicidade extenso. De nada me vale conseguir vitórias sozinha, o crescimento solitário é tão egoísta que chega a ser triste. Então é bom ver um trio tocando por um sonho particular (seja lá qual for), pois são desses sonhos que nascem outros, como alguém querer comprar uma guitarra ou uma bateria, fazer alguém desesperadamente querer escrever um texto para que as pessoas conheçam esse som ou simplesmente fazer com que a galera separe uma grana do final de mês para comprar o EP de lançamento.

Tenho certeza que esse é só o começo da boa safra de produções paraenses, que vou fazer questão de entornar. João, Augusto e Raony, continuem aprontando boas sacanagens dessas conosco, que tenho certeza que até os djs vão amar vocês (risos).

Baixe o EP AQUI.

4 comentários:

  1. Essa Monique é demais!!! Excelente impressão do disco do Molho Negro. Conseguiu até encaixar Adorno na história. Bjs.

    ResponderExcluir
  2. poxa obrigada, na verdade o Adorno que se encaixa nas coisas ahahahaha

    ResponderExcluir
  3. Horkheimer e Walter Benjamin curtiram o texto rsrsrsrs ;)

    ResponderExcluir