07/01/2012

"Soledad", um retrato de amor e arte.

Não sei se gosto ou não de cemitérios, se me sinto ou não confortável neles. Lembro que quando minha avó materna morreu eu não quis ver o enterro, não sei me despedir, não da forma que todo mundo tá acostumado. Eu dei adeus quando ela ainda viva tinha força de apertar minha mão. Lembro que quando morreu uma borboleta pousou na mão dela.


Demorei para entrar n'um cemitério novamente, até que um dia fui ao cemitério da Soledade fotografar para um trabalho da universidade. 

Quando vi o curta "Soledad" pela primeira vez me deu uma sensação meio angustiante, mas ao mesmo tempo bonita de encontrar o que não se buscou. 

Antes de entrar no cemitério o protagonista passa os dedos na grade do lugar, como quem tateia uma possibilidade. Isso me lembra aquela curiosidade que as crianças tem, já percebeu que elas sempre querem sentir devagar grade e corrimão?


Então, ele entra no Soledade pra fotografar e durante os cliques percebe uma moça de vestido florido desenhando, assim como ele a outra personagem foi ali para documentar o lugar em forma de arte. 

Percebo que nesse ponto da história os personagens já se encontram mesmo sem a percepção total da presença do outro para um deles. 


Fotografia e desenho, se formos pensar nelas uma ao lado da outra, dá pra ver uma ligação ou várias entre elas. A fotografia é um tipo de desenho também, que o artista desenha com a luz, usando do olhar e sensibilidade para reproduzir ou recriar a realidade. 

E o que teria de interessante em fotografar e desenhar a paisagem que este cemitério de Belém nos mostra? 

No século XIX Belém passou por epidemias de febre amarela, cólera e varíola que mataram cerca de trinta mil pessoas, que foram enterradas no Soledade. O cemitério foi desativado em 1880, porque estudos apontaram que o solo de argila e areia era impróprio para enterrar os mortos.

Aquelas estátuas que são tão interessantes para a arte também nos contam sobre a história. Além da beleza óbvia, esses artigos ficam mais interessantes e misteriosos por conta da ação do tempo sobre o material das obras. 


É interessante a ideia que o curta trouxe de mostrar dois jovens encantados por esse tipo de arte, e partindo dela produzem outro tipo de arte. Se eu tô bem conectada as aulas de português básico, isso se chama metalinguagem (risos).

Muitas famílias ricas importavam os mausoléus da Europa com traços da arquitetura grega e de art nouveau, assim homenageavam os familiares mortos por conta da epidemia. Reproduzir isso me lembra aquelas fotos que os pais levam dos filhos na carteira. "Olha só que beleza, essa obra de arte", uma espécie de desejo de levar por aí a beleza que os olhos viram. 


Com essa reprodução se leva história também.

O curta metragem "Soledad" foi realizado durante uma oficina da escola de cinema "Caiana Filmes". Escrito po Pedro Tobias, com direção coletiva, edição de Davi Paes e desenhos de Vika Albino.


Pedro Tobias, não me espanto que esse menino tão novo esteja começando a escrever e ter ideias tão boas. Das conversas que já tive com o Pedro sobre cinema, ele se mostra não só apaixonado, mas terrivelmente apaixonado por cinema. 


Que bom que tem muita gente encantada por essa arte aqui em Belém. Claro que se ouve sobre um tal ego que alguns tem, mas fica claro pra mim e pra quem conhece o Pedro Tobias que ele não pretende ser um esnobe, mas pretende sair do comodismo, e que praga é isso né, o "comodismo".

Os desenhos que aparecem durante o "Soledad" são de Vika Albino, que por sinal são gostosos de ver, acho interessante a fase inicial do desenho em que tudo se assemelha a formas geométricas, que com sensibilidade, tato e talento, são esculpidas até ganhar uma cara própria. 

"Vai ser melhor quando te conhecer, olho no olho e flor no jardim"

"Como uma história que inventa o seu fim, quero inventar um você para mim"

A trilha escolhida foi uma música da Tulipa Ruiz chamada "Do amor", o que dá o clima de romance que a história roga. O que era para ser fotos das obras de arte do cemitério viraram fotos da menina desconhecida. Assim como o fotógrafo de "Soledad" é preciso que a gente perceba mais o mundo além do nosso quintal, como diriam os "Los Porongas". 

Às vezes vamos para o mundo com um foco, mas coisas bonitas e novas nos aparecem e como elas não estão em nossos planos damos as costas e perdemos grandes oportunidades. Essa dinâmica funciona para o amor também.

"Soledad" nos apresenta o momento da surpresa e do encontro de duas pessoas ligadas antes mesmo de se conhecer, por acontecimentos simples.

Simples, "Soledad" é simples e sua beleza está concentrada nisso, ou o eixo dela. Não é só porque foi produzido aqui que deve ser assistido, mas porque é ótimo, suave e de bom gosto.


Assista clicando aqui.







4 comentários:

  1. Monique, acho sempre lindas as comparações que faz sobre o que está escrevendo com fatos da sua vida, assim como achei bela a sua interpretação sobre o "Soledad". Creio que eu ou qualquer outra pessoa da equipe do filme não poderia descrevê-lo(ou defendê-lo) melhor! E sério, de alguma forma (não me pergunte qual) você me fez gostar mais ainda do que conseguimos fazer com com esse "simples curta-metragem".

    E desculpa, não tem como não dizer: MUITO OBRIGADO!!!

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  2. É só pra acrescentar, a Vika Albino, minha amiga, é uma ótima desenhista, olha só o blog dela: http://papelalbino.blogspot.com/ =]

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  3. Nossa fiquei emocionada de verdade ao ler isso, acho que eu que tenho que agradecer, porque é preciso que se bote a cara pra fazer cinema, mesmo que com pouco recurso, legal ver gente inteligente, humilde e esforçada fazendo coisas legais e significantes. Vou conferir o blog da Vika com toda certeza.

    :)

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  4. EU VOU SEMPRE REPETIR AQUI, ÉGUA DO TEXTO FODA!

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