02/04/2012

Música, o frio na barriga que conta nossa história.


Então Demétris teve uma filha com o “mulherengo” da mitologia grega, Zeus. A menina se chamava Persefónes e foi criada em meio as ninfas com as outras filhas de Zeus. Um dia enquanto ela cuidava da plantação surgiu Hades, irmão de Zeus, que vivia no reino da escuridão, dos infernos.

Ele se apaixonou por Persefónes e a levou para o inferno, mas na hora em que foi raptada a menina soltou um grito que Demétris ouviu. Ela passou dias procurando pela filha, soube então que Persefónes estava com Hades. Para pressionar Zeus a fazer alguma coisa Demétris resolveu que permaneceria mortal até que a filha voltasse.

Já que ela era responsável pela fertilidade da terra, o mundo começou a ficar com terras nas quais nada brotava, aí Zeus resolveu buscar Persefónes, mas era tarde, porque a menina tinha comido um romã do mundo da escuridão e isso fazia dela parte do lugar. Então Zeus instituiu que Persefónes passaria parte do tempo com Demétris e outra parte com Hades. Desde então toda vez que ela está longe da mãe a terra fica infértil, essa é a época que chamamos de inverno.

Para cada manifestação da natureza os gregos tinham uma história que explicava, nossa vida até hoje está povoada desses mitos. Quando ouço certas músicas também percebo nelas forças míticas, que narram o que os homens querem do mundo, como o enxergam ou como imaginam que um dia ele poderia ser.

Compositores criam histórias cheia de símbolos que uns interpretam ao pé da letra, outros adaptam às suas próprias vidas e outros encaram aquela criação como um sinal, tal como os mitos que povoam a vida humana desde sempre.

Quando Fagner canta “Borbulhas de amor” ele fala sobre si mesmo ou a figura do ser masculino em forma de peixe, que quer mergulhar na mulher amada. “Quem dera ser um peixe para em teu limpido aquário mergulhar, fazer borbulhas de amor ao te encontrar”.

É uma história de amor contada de um jeito diferente, da qual podemos extrair lições interessantes se analisarmos a fundo cada elemento escolhido. Assim como Fagner escolheu o peixe para simbolizar o homem que quer mergulhar em sua amada, os mitos também nos contam conceitos e tentam nos educar narrando de um jeito fantástico e simbólico a mensagem que se quer transmitir.

Uma canção se torna mais interessante quando nos faz pensar, mas ela não precisa ser apenas uma canção óbvia de protesto por exemplo, quanto mais mitica uma canção é, quanto mais interessante ela fica. E o que é ser uma canção mitica? É dizer o que se quer dizer de uma maneira que o ouvinte possa interpretar da forma que você quer ou de outras diferentes formas. Você compõe uma canção, a registra, mas depois ela não é mais sua, apesar do dinheiro que ela produz ir para você.

O mundo infelizmente ainda continua povoado de canções que não nos fazem pensar, que não dizem nada que nos engrandeça como humanos. Esse texto não é para vangloriar genêros musicais, não falo só de canções de rock ou da mpb como boa música, o sertanejo por exemplo já foi mais interessante.

Assim como vários mitos que narram épocas de um povo, o sertanejo já cantou histórias do homem do campo, de suas lutas e conquistas. O herói do campo tinha suas histórias narradas nas canções dos sertanejos, que falavam de como as plantações vingavam com a benção dos santos padroeiros e da labuta do homem rural.

Hoje os sertanejos falam sobre baladas em boites, “thê thêrêrê thê thês”, “ai se eu te pego” e meteoros das paixões em suas músicas. Pessoas da minha idade sabem toda a letra e cantam com toda a força dos pulmões. Elas se identificam com a saga do falso sertanejo que mora na cobertura de um prédio na cidade e cujo grande feito heróico é ir para a noite conquistar periguetes. São essas histórias fantásticas que a música produz (risos).





Ainda bem que na contrapartida aparece o cantor Criolo Doido cantando: “O dinheiro vem pra confundir o amor, o santo pesado que tá sem andor (…) quem tá na linha de frente não pode amarelar”, nos contando histórias de quem olha o morro de dentro, contando uma realidade com uma linguagem até então utilizada somente por cantores/compositores não nascidos no morro, é claro que nessa afirmação não leva em conta figuras como Cartola.

A geração de artistas “Mv Bill” cantam o morro com uma linguagem ainda esteriotipada, que alguns chamam de “música de malaco”, mas a saga da vida do menino Criolo Doido é de um “herói” que foi em busca da literatura e a misturou com as suas vivências do morro e ousou dizer que não existe amor em São Paulo. “cuidado com o doce, São Paulo é um buquê (…) são flores mortas num lindo arranjo, arranjo feito pra você”.

Quanto ouço essa canção penso no pensamento das pessoas que enxergam São Paulo como o céu que solucionará a falta de emprego e perspectiva delas. Essas duas realidades nem sempre são sanadas com uma mudança de endereço, tem muito mais coisa em jogo, mas isso vou deixar para um próximo texto.

Mesmo que uma música não seja a narração de um fato real, ela é assim como os mitos, os contos de fadas, as novelas e etc uma forma de contar algo que o povo tem dentro de si, ela narra épocas mesmo tendo como base personagens ficticios.

Se um dia Aretha Franklin cantou sobre um homem que batia na mulher e roubava o dinheiro dela (fato bem comum na época), nos dias atuais temos Amy Winehouse que em “Stronger than me” fala em nome das mulheres que reivindicam o fato de terem que ser sempre mais fortes que os homens, tais mulheres reivindicam o prazer de serem cuidadas por seus homens.

Engraçado, depois de passarmos por tantos abusos, reivindicarmos, queimarmos sutiãs, queremos agora que os homens os abotoem e nos ajudem quem sabe a escolher a estampa também. Depois não me diga que a música não tem um pouco de mitologia. Se for olhar bem, tudo na vida tem um pouco de mito.

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