11/06/2012

Pio Lobato e sua guitarra encantadora.

 
Toda vez que vou apresentar um som novo para um amigo sempre ouço a velha pergunta: mas o que esse cara toca?

É interessante como as pessoas estão sempre interessadas em definir o estilo das coisas. Isso é rock, isso é bossa, isso é indie, é frevo, é o raio que nos parta. Antes de pensar em qualquer definição para o som do Pio Lobato prefiro dizer como me sinto, porque talvez assim, você leitor, chegue no ponto G musical, que naturalmente só se chega ouvindo gênios como esse, que coincidentemente mora aqui em Belém.

Não é exagero dizer que Lobato é gênio. Abra o dicionário e confirme.

Gênio: Espírito inspirador de uma arte, de uma virtude, de um vício, grande talento inato, aptidão especial.

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Pio tocava em uma banda chamada "Cravo Carbono" que espero um dia falar sobre por aqui. Mas a carreira solo do guitarrista encaro como um presente, porque o trabalho dele é mesmo diferente e único. Sugiro a audição do álbum "Tecnoguitarradas" de 2007, antes da febre global de amar a cultura paraense.

Nesse trabalho o artista se mostra um cara da surf music, do carimbó, do tecnobrega, da música eletrônica com ecos, experimentalidades e loops. Ele toca guitarra como quem faz isso de olhos fechados, é bem possivel que ainda se sinta surpreso quando alguém elogia sua arte, porque o que Lobato cria pode ter uma carinha de complexo (talvez), mas o modo como ele interage com os que gostam de sua música é simples.

O "Tecnoguitarradas" não é um álbum que soa cult ou de moda, ele é natural e atemporal. Com certeza ecoará por muito tempo para aqueles que derem a única chance da audição.

Dia desses vi um post de alguém no facebook que perguntava quantas vezes ouvimos um álbum para saber se é ruim ou bom. No caso do Tecnoguitarradas, garanto que uma única ouvida dá conta de cativar ouvidos atentos e outras mais darão conta de viciar mentes inquietas.

Observo Pio no palco com suas camisas caribenhas cheias de flores, seu óculos de leitor e um cabelão de quem poderia ser do metal. Apesar de não tocar metal (até onde sei), a obra de Pio é agressiva, pois agride minha mente de forma a me fazer em segundos sair da zona de conforto e percorrer em pensamento os rios, as matas e tudo que nós, amazônidas urbanos, esquecemos que nos cerca.

"La bicuda" poderia ser tranquilamente uma música de perseguição, são quase dois minutos de um som obscuro e acelerado, que considero ser a melhor do álbum. Ela me lembra demais a banda alemã "Kraftwerk", que foi trilha sonora dos primeiros inferninhos que frequentei na vida.

Experimentei colocar para tocar ao mesmo tempo "Radioactivity" do Kraftwerk e "Viajando" do Mestre Vieira (sendo Vieira uma das inspirações de Lobato). Não sei exatamente porque me deu vontade de experimentar essa audição, mas nesse momento entendi que o mundo só é interessante quando misturamos tudo pelo menos uma vez na vida e abrimos a mente para o novo, e o novo pode ser assustador, mas certamente faz maravilhas para os que estão focados em VIVER.

Então depois coloquei para tocar o "Cyber do Pio" e foi como se eu saboreasse vários ritmos sem perceber. Sem esquecer é claro de "Fura Criatura" que tem gosto de surf music, que deixaria Dick Dale orgulhoso.

Desde a década de 90 Lobato se dedicou a estudar a guitarrada, que existe desde os anos 70, sendo esta resultado d'uma mistura de ritmos feita pelo Mestre Vieira. 

O trabalho de Pio não é como muitos que em pouco tempo se vai na neblina, ele é fixo e ao mesmo tempo mutante, e para quem o ouve se torna eterno.

Para baixar o "Tecnoguitarradas" clique aqui.

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