21/08/2012

"Projeto Secreto Macacos" e umas viagens dadaístas.



Instrumental. Essa palavra me soava chata, até os meus 17 anos, quando ganhei um disco com sons de passarinhos. Eu poderia mentir para vocês e dizer que o primeiro disco instrumental que eu ganhei e gostei foi do John Coltrane, ele veio bem depois para mim, mesmo que em 4shared.

Então, era um disco com todo tipo de fi-fi-fi de passarinhos, me lembrei da época das fitas cassetes verdes da Disney, me lembrei de quando eu viajava de barco com meus primos, lembrei das viagens para o interior que fazia com meu pai, lembrei da minha vó tratando peixe no jiral, lembrei de mim criança.

Quando fiz 19 ou 20 anos, não lembro bem, comprei um disco do Count Basie, tava baratinho, uns vinte reais. Cheguei em casa e coloquei no disc-man (sou velha). Era legal aquele som, tinha um ar meio cinematográfico naquilo, era diferente das coisas que eu ouvia.

Depois veio o Miles Davis e o Dick Dale, esse por sinal ouvi na casa de uma amiga, ela disse: Ah vou te mostrar uma coisa legal, ouve e vê o que tu achas. 

Às vezes me bate uma tristeza em não ter me aprofundado em música instrumental, mas a vida sempre acha umas brechas para me atrair para esse caminho. 

Na última sexta-feira (17) fui conferir o "Projeto Secreto Macacos" (lá estou eu lado direito da foto, tic-tac vermelho no cabelo), não foi a primeira vez que ouvi a banda ao vivo. 



Dessa vez eles estavam apenas com um baterista e pareciam mais maduros em relação ao próprio som. Lembro de ter entrevistado o Jacob Franco (um dos integrantes da banda) no último Grito Rock e ter ouvido dele que a banda era uma mistura de coisas. Esse mesmo discurso ele repetiu no pocket show da Saraiva, mas só agora deu para perceber mesmo a mistura, aliás ouvir qualquer banda que seja no Espaço Benedito Nunes da Saraiva é uma oportunidade incrivel, dá para "sacar" todos os instrumentos e perguntar o que quiser para a banda.

O Projeto Secreto Macacos nos apresentou um som que se confundia com música eletrônica, jazz, hardcore... De uma forma estranha aquela mistura toda faz sentido e cria uma resposta bonita em relação ao público. 

Público, cada banda tem o seu, mas às vezes existe artista que conquista mais de um sem se entregar ao ecletismo. 

Puro engano dizer que essa mistura inusitada do Projeto seja eclética, ao ouvir você consegue se desconectar do mundo. Por alguns momentos me perdi nos meus pensamentos, já não sabia se aquele som vinha da banda para mim ou se emanava mesmo de uma outra dimensão, não, eu não uso drogas (risos).

A música instrumental dá espaço para a mente viajar, mesmo que as palavras não estejam ali existe uma mensagem. A diferença é que essa mensagem é individual, maleável, quase que indefinivel, então a gente se condiciona em chamar de experimental.

Mas o que é o experimental? Experimentamos o quê?

É como recortar trechos de jornais e revistas, colocar em um saco e depois ir colando tudo aleatoriamente em um papel. Pronto, você tem um poema dadaísta. Algumas pessoas podem enlouquecer tentando entender a mensagem daquilo, mas a verdadeira mensagem não é aquilo que está lá a olhos nus. 

A mensagem mesmo do experimental é quebrar essas regras tão técnicas que envolvem o jeito de comer música. Assim como um poema dadaísta a música experimental pode ser o que cada um quiser que ela seja. 

"Cara vocês tão meio progressivos", "Eu sinto que vocês são meio jazz", "Égua não pensei que a música de vocês poderia ser tão pesada que nem o metal", essas e outras frases ouvi lá na Saraiva, então acho que não preciso mais falar nada. 

Experimental, esse papo do século vinte que faz minha cabeça. Ótima banda, perfeito som. Já estou ansiosa pelo disco, que segundo os caras sai esse ano.

Ficou curioso? Clica aqui pra ouvir Labaredo.

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