02/11/2012

"A Trip To Forget Someone", uma linda viagem emergencial.




Estamos preparados para viajar por dentro de nós mesmos?

Eu poderia morrer depois de ver o show de "A Trip To Forget Someone". Não me importava mais a ilusória vontade de ter sucesso na vida, comprar um apartamento de dois quartos com varanda, não importava mais a procura pelo par, não precisaria mais do sexo casual e a garrafa de cerveja na minha mão tinha se tornado nada, como a maioria das minhas certezas niilistas.

Provavelmente foi um grande erro eu ter cogitado não ir para essa prévia do Rock Rio Guamá. Poderia dizer que as criações do Erik Lopes trazem um pouco de Radiohead, Elliott Smith e em alguns momentos me fizeram (e ainda farão diversas vezes) querer chorar como a "Song to the Siren" do Tim Buckley.

Cheguei em casa, sentei na beira da cama, lembrei do Donovan novinho, sentado em um banco de madeira com um violão no colo cantando "Catch the wind". A mesma verdade eu vi ontem no palco do Café com Arte, deu para sentir que o criador estava harmoniosamente envolvido com suas músicas, como se elas estivessem sempre ali e ele foi lá e as capturou, deu forma a elas. 

Uma vez me disseram que a música instrumental é uma viagem de músico, é o gozo único de quem toca, e que o público espera  bandas com letras, pois são elas que dão sentido aos sons. Como posso concordar com isso?! 

O instrumental das músicas me chegam como palavras caras e não condicionam ou limitam meu pensamento para uma só encruzilhada, mas para várias. Alguma coisa nova (ou não), mas linda e espetacular, está acontecendo na brea de Belém, quando olho para o lado e digo para um amigo: cara, essa banda faz eu me sentir lá no palco tocando junto com eles e eu nem sei tocar - então meu amigo diz: é isso mesmo. Provavelmente essa conversa se repetiu entre outras pessoas que estiveram no show, garanto.

Não, não dá para desconsiderar que esse texto não tem a pretensão de ser técnico, deve até esse momento ter soado até um pouco esquizofrênico  mas tudo bem. 

Lembro de ter passado o indicador no gargalo da garrafa e sentir a vibração, de sentir meu corpo todo vibrar, de esquecer que eu tinha pés, de me imaginar dentro de uma piscina escura e infinita. Não se trata só de uma arte onírica, mas de um produto musical, sem cara de apenas produto, como acontece na maioria das vezes se tratando de bandas de rock. Que lindo poder baixar o disco inteiro e ser convidado para essa viagem sem grandes firulas e empecilhos. 

Quem disse mesmo que gosto não se discute?! O nosso problema é que perdemos muito tempo discutindo coisas que não se propõem a ser arte, nem sempre a arte existe para ser didática, a essência dela é ser além de entretenimento uma fibra pulsante que consegue chegar no canto mais obscuro e impenetrável da mente e fazer com que o individuo sinta coisas que até entes sobrenaturais duvidariam. A Trip me fez levitar dessa primeira vez, não sei o que vai acontecer comigo da próxima e já me bate a ansiedade doida de saber.

"London" se ouvida com headphones parece que percorre toda a circunferência da cabeça e atinge o terceiro olho, quando menos se percebe os três minutos de música passaram voando e você caí em "Innisfree" que dá uma agonia por soar como despedida, como final de filme bom que dá vontade de ficar lá sentado no cinema e pedir pra voltarem desde a primeira sequência. 

"Surreal" me lembra a primeira vez que eu ouvi Soundgarden na minha primeira casa depois que saí da casa dos meus pais, olhando para minha tv desligada, com poucos móveis ainda e temerosa pelo futuro. Quando a minha vida se confunde com o que ouço tudo se confunde dentro de mim e posso dizer que a banda já faz parte dela.

"Perimetral" e "Flores" são emotivas, sinceras, fluem bem, são tranquilizantes, mas ao mesmo tempo tem um fio de inquietação, parecem um grito que aumenta a cada dia, como é o enredo vital.

Experimente colocar o disco no repeat, a última música conversa com a primeira, não só pelo título, mas pela ideia que cria de eterno retorno, e garanto que você ficará tentado em ouvir novamente e novamente. Não sei se todas as viagens valem, mas essa pode ter certeza que será pura catarse.

Para baixar, para ouvir, para conhecer.. clique aqui.

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