22/12/2012

Stereoscope e o meu luto pelos finais.



A garota de ninguém que saía de manhã e beijava a boca de seu homem agora só vai tocar nas nossas casas, nas reuniões dos amigos, no mp3 companheiro de engarrafamentos e repetidamente na minha cabeça. Adeus Stereoscope, é uma pena que um novo ano chegue e eu me depare com uma vida sem novas músicas dessa banda.

Sei lá, quando uma banda acaba parece mesmo luto daqueles amores intensos, que a gente se entrega, cria um bilhão de expectativas, fica colado, espera um “para sempre” longo e aí um dia o grande amor chega e diz: tenho uma coisa pra te dizer, acabou. Aí a gente fica indagando o porquê, se revolta, faz barraco, dá piti e enfim aceita, fica olhando fotos antigas tentando reviver o passado.

Então estou aqui tentando reviver os shows do Stereoscope, nos quais conheci alguns amigos, dividi cervejas e me senti viva em cada letra cantada, como se elas tivessem sido inspiradas na minha vida. Dá assim uma vontade desmedida de fazer escândalo e passeata pedindo “Caralho, volta Stereoscope!”. Quem vai me aconselhar? “Meu amigo o que você tem? Precisa sair para ver uns amigos, largar um pouco o seu computador, ir lá fora para ver o calor do sol […] meu amigo está tudo bem, o que você sente outros sentem também”.

Ela é tão singular num mundo tão ordinário”

Quantas foram as vezes que enquanto chorava e me sentia desmotivada ia lá e colocava “Ela acorda cedo” e começa a acreditar mais em mim, uma garota cheia de medos e tristezas naturais da juventude. Aqui no meu quarto, no meu mundo com minhas lembranças, colocava pra tocar essa canção e tudo que era ferida ia se curando de forma mágica. E se tocava em alguma festa tudo em volta ficava borrado e só restava eu, o movimento dos meus pés acompanhando a primeira virada da bateria e o vento batendo no meu vestido.

Quando eu ficar mais velho me aceita, liga a TV e me serve o jantar. E se eu chegar em terceiro me beija”

Não, não era uma música machista, era sobre estar junto, dar apoio. A gente se sente sempre tão sozinho, a existência é solitária e às vezes o peso de viver só fica leve levinho com os bons amores, com os amigos. Envelhecer dá um nó na cabeça, o futuro parece assustar e o passado se torna tão atraente. Mas Stereoscope me acalmava, me falava sobre um presente de passos tranquilos, de ter o orgulho das vivências do passado, mas com os pés no agora.

Eles estiveram lá junto do meu coração quando eu praguejei o amor, quando eu quis me apaixonar novamente ou quando deixei de acreditar em mim. Eu ligava o mp3 e eles diziam se hoje eu morrer antes do fim, que seja como um feriado pra mim […] se alguém disser que eu me fui na flor da idade é tudo bobagem e aos meus amores com seus sabores me levem flores, esqueçam rancores e guardem um sorriso pra mim”. Sempre tive esse pensamento recorrente sobre como seria se eu morresse, não era de modo algum um pensamento de tristeza ou de tendência suicida, era uma curiosidade implacável sobre meu papel na vida dos que amo.

Pensava que flores escolheriam, que música tocaria, que sentimento envolveria o coração dos meus ex's amores e desafetos. “Se eu morrer o meu consolo é que muitos já foram bem antes de mim”. Assim de um jeito leves, simples e bonito “Assunto para um domingo” falou da morte como parte da vida, sem medos e com a certeza da vida bem vivida, que a juventude é vivida todos os dias, todo dia é dia para ser jovem.
Termino este texto chorando, me deixando levar pelo sentimento de que ainda não sou elevada para superar os finais, a morte e os thaus. Fico por aqui sentindo saudade dessa banda linda, que vai fazer muita falta. É triste saber que não vou mais poder escolher meu melhor vestido e chamar os amigos para ir ao show do Stereoscope. Viva rápido e morra jovem. Obrigada Stereoscope.


Quem quiser ouvir as músicas desse post, elas estão no disco "O grande passeio", baixe aqui.

2 comentários:

  1. Bom, depois de quase 40 anos ouvindo rock, e vendo as minhas bandas preferidas entrando no túnel do tempo, só resta lhe dizer que elas nunca acabam, porque registraram, primeiro na máquina, e depopis em vc, porque o ser humano, principalmente o fan, não deixa nunca aquele som, aquela nota, aquele show, se perder, seja na memória, nas conversas, nos textos, e, é claro, em toda festa onde a trilha sonora cante o seu coração e faça aquele momento eterno, como uma canção que nunca tem fim. Abrçs. Felipe Gillet

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