20/12/2012

Tábita Veloso e Os Forjadores, meu novo vício.




"Talvez o azul do céu seja uma grande ilusão [...] agora vejo que o mundo não é azul [...] a vida é assim, em um dia suspende e cai, no outro dia segue em frente"

"As luzes da praia me fazem recordar de quando eu queria tanto azul do mar, as coisas não são bem assim"

“Imaginar o que vai surgir, seja o que for eu não queria estar aqui. As dúvidas percorrem em devaneios leigos de seus fundamentos”

A primeira vez que ouvi “O mundo não é azul” logo me lembrei do primeiro verso de “Blue Monday” do New Order: “How does it feel to treat me like you do?” falando sobre desilusões, imagens criadas, expectativas destruídas e ambas falam sobre o indivíduo desiludido pensativo na praia. A praia sempre me soou bucólica mesmo, toda vez que vou à praia me sinto perdida, olho o horizonte e imagino que talvez o final seja como é no filme “Show de Truman”, que o céu é na verdade uma parede e que a vida é uma grande farsa.

Essa semana estava na fila do banco e dois senhores conversavam sobre a ilusão, me surpreendeu um diálogo desse tipo em uma fila, afinal a mudança climática sempre é a opção mais usada. Um disse para o outro: “o sol é uma grande ilusão, o que vemos não é exatamente o sol, é a luz que vem dele”. É sempre bom reavaliar sobre o que é ilusão na vida, ou como nos deixamos mergulhar no mar das expectativas e acabamos frustrados. 

Tábita Veloso e Os Forjadores resgata essa reflexão sobre a desilusão, cria a imagem de alguém que pode ser eu ou você cheio de projeções e que se depara com a realidade da vida, que os acontecimentos por mais cronometrados que sejam, ainda assim são imprevisíveis.

A banda é formada por Alexandre Brandão (Guitarra Solo), Allan Jorge (Bateria e Vocal), André Moska (Guitarra Base e Vocal) e Guto Ribeiro (Baixo).

Não é fácil lidar com a parte da vida na qual as coisas falham, na qual a dor existe, porque sim, ela existe. A praia pela qual se caminha significa a parte de nós em que tudo é armazenado, às vezes é preciso enfrentar essa areia dura, essa praia de caminho longo para achar o que é preciso ser achado ou resgatado.

"Mostrei para os meus amigos o dom natural, houve ali quem não gostou, é que cada um tem seu sabor. O calo nas mãos de ferreiro de tanto forjar sonhos [...] a força nas verdades dos meus ideais conduzindo-me a você"

Esse é um trecho de uma das músicas que mais me chamou atenção, não só pelo ritmo que mistura mpb com pop, mas pela letra que fala sobre a força do homem trabalhador. Falando sobre mitos e fé, caracterizando o homem como um ser cheio de crença no futuro. 

“Evoco toda essa fé pra dar certo, pago as promessas de torto e incorreto, ainda assim consigo duvidar das estruturas morais de Jeová”, a relação do homem trabalhador com a religião não é de agora, e Allan Jorge consegue mostrar em sua excelente letra que o homem primitivo já evocava o imaginário, os deuses para impulsionar o dia-a-dia de sua labuta. 

Arrisco dizer que a banda nos dá a oportunidade de mergulharmos em coisas que estão flutuando por aí, nos fazem pensar sobre assuntos do eu, e que bom que fazem isso, de propósito ou não.

Sou romântica na medida do possível, então não tem como não reparar na faixa “Petit” que de tão simples e espontânea facilmente seria a trilha sonora de muitos casais e dos apaixonados correspondidos ou não.

"Quem é você que já não sai dos meus pensamentos? [...] Quem é você que a saudade grita seu nome no horizonte?"

A voz de Tábita é um presente, é de extrema importância que esse talento seja conhecido. Uma voz segura, forte e que acredita na letra que canta. O instrumental é bem entrosado, gostoso de ouvir. Uma produção poética, autoral e cativante, que consegue ir além da fórmula pop que algumas bandas com vocais femininos geralmente adotam. 

Falar sobre sentimento, sobre reflexões de vida e sobre amor não é fácil, pois é arriscado cair no clichê, não que o clichê não seja bom, mas no caso dessa banda ele é dispensável naturalmente. 


Pra quem quiser ouvir, clique aqui.

5 comentários:

  1. Ai Nique, que coisa mais verdadeiramente linda. Eu sou uma das que acredita nesse projeto. Pela doce verdade, e pelo amor que eu sinto quanto os vejo tocando. Fotografá-los é sempre um grande prazer. Que bom ajudar a contar essa história! Parabéns mais uma vez pelas sinceras impressões. Como sempre, escrevendo crônicas que se assemelham a partituras musicais.

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  2. Eu sinto exatamente o mesmo.Talentosos ao extremo e viciantes mesmo.

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  3. Obrigada Karina, a banda merece esse carinho mesmo (:

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  4. Que bom Aline que partilhamos do mesmo sentimento (:

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  5. Fico muito feliz em saber que gostou do nosso trabalo. Obrigado Monique por tão lindas palavras...
    Tábita Veloso

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