03/03/2013

Elder Effe e as estradas que percorremos.



Alguns discos a gente gosta de apenas uma ou duas músicas, deixa em alguma prateleira cheia de poeira e esquece até da existência dele. Outros são como os grandes amores, que se forem realmente grandes e bons a gente morre de vontade de revisitar. Há outra coisa sobre discos que sempre martela na minha cabeça, nem todo disco merece ser chamado de álbum, afinal álbum é artigo de carinho, de quem quer quem juntar memórias e histórias que conversam entre si. Então antes de qualquer coisa a ser dita posso dizer que “As Crônicas do Bandido” (2012) do Elder Effe se trata de um álbum, por mais que durante este eu use a nomenclatura “disco”.

Esse disco foi chegando aos poucos na minha vida, ia baixando as músicas devagar, acompanhando os vídeos, até que em uma sexta-feira antes de ir para o trabalho vi um vídeo do Elder feito pelos Invisíveis da quarta faixa do álbum “O escapista”. Ele ali com um violão de madeira clara, o vídeo começa focalizando nas mãos dele enquanto toca, depois o plano abre e mostra Elder solitário tocando em um banco e um rio lindo do lado esquerdo do vídeo e ele começa a cantar: “Eu ando depressa porque não consigo parar, eu fico cansado, mas isso não pode me parar”. Trechos como esse e outros como “Ando depressa e quando preciso mudar, eu mudo de cenário e voz, voz, voz. Enquanto ninguém percebe me aproximei se fico meio lento e passo batido […] é quase sempre igual, o caminho se faz andando”. Uma espécie de discurso de quem já viajou bastante, se aventurou e voltou para contar.

Uma certa vez um adolescente cantou: "Quantas estradas um homem precisará andar antes que possam chamá-lo de homem?", Bob Dylan já se perguntava sobre a jornada do homem na Terra, sobre o trabalho árduo, o tempo que nos guia e nos transforma e principalmente sobre a ação do tempo na vida de um homem. Há sempre um momento na vida que o indivíduo se pergunta o que fez de importante, revisita em pensamento as estradas pelas quais percorreu. Dia desses tive uma conversa desse tipo com o meu pai e ele falava sobre as coisas que deixou de fazer ou que teria feito melhor se tivesse o conhecimento que tem hoje, então eu simplesmente disse a ele que a vida começa a cada dia que se acorda, e ele sorridente (dá para perceber pela voz dele ao telefone quando ele sorri) concordou comigo e ambos aprendemos juntos todos os dias que o tempo é implacável, mas nossa vontade de ser feliz é maior.

E é sobre a vida meus amigos, a vida na sua essência mais pura que esse “As crônicas do bandido” nos presenteia. Um homem criado por Effe conta suas aventuras e desventuras durante as faixas, como se fosse mesmo um diário de um viajante, e nós o acompanhamos por esse passeio, nos identificando com cada frase que ganha mais força com as belas melodias folks, que mesmo quando alegres ainda soam solitárias, mas a solidão que percorre essa obra não é a mesma solidão da qual percorre os asilos, essa é uma solidão bonita, de auto encontro.

Me falta no mundo que vivo o que sobra na TV, alguém me dê um motivo para encontrar você, é que eu ando parado e quase sem sair do chão. Eu não acho graça de nada e não sei que horas são [...] será que você pode me dizer o que fazer? Mas enquanto isso eu não sei o que faço, por isso eu digo pá pá pá pá”. Video out mostra um homem aparentemente estagnado e sem vontade de muita coisa, mas ao mesmo tempo em que ele se mostra decaído sua salvação é a música. Esse simples “pá pá pá pá” ou o curto solo que sucede a oração: “Mas enquanto isso eu não sei o que faço, por isso eu digo”, são as respostas para o que deve ser feito quando a tristeza chega, é algo como: “Calma aí, você tem problemas, mas enquanto não os resolve, cante, toque, aproveite o que a vida te deu de bom e bonito, faça música do caos”.

É tudo diferente quando se presume que o seu melhor passou, o que ninguém traz é o que você quer […]. Além do meu coração eu levo no meu pensamento, se você vai acontecer me leva junto com você”. Com uma pegada gostosa e com um ritmo mais acelerado a faixa “Os comparsas” que me lembra meus melhores amigos, nosso crescimento juntos, alguns foram para longe, outros ficaram aqui por perto e hoje os adolescentes sem muitas perspectivas estão trabalhando juntos, fazendo projetos em parceria, mais maduros, e os que estão longe só estão em distância, mas a conexão continua em pensamento, porque uma história de amor também é sinônimo de uma história de um grupo de amigos.

"Toda vez a mesma história sem você aqui por perto, cores iguais em quadros iguais, filmes normais, a cada movimento mais sonhos iguais em tempos iguais [...]. Outra vez me volto às coisas que são realmente simples", com uma letra e uma melodia que não tem como não querer dar o play novamente antes mesmo de terminar Elder Effe nos apresenta uma bela composição em “Fator x”, a sexta do álbum.

Mas a belíssima “A estrada” é uma das minhas favoritas, não só pela beleza do teclado ao fundo, mas pela forma que Effe usa o violão, que soa harmonioso e belo. É nessa canção que encontramos todas as ideias já pinceladas nas outras canções, é a verdadeira crônica do viajante ou do bandido. Com essa temática western Elder consegue evocar o romantismo do homem que se questiona ao mesmo tempo que segue em frente, conhecendo gente nova a cada dia, esse pensamento furtivo de ter raízes na estrada, como em trechos: “A velocidade me deixou melhor, o dia amanheceu e lembra a minha casa, mas a estrada é muito mais”. Elder Effe sinto lhe informar, mas você pegou pesado com nossos corações, e ainda bem que fez isso. Não tem como não se sentir tocado com “Alguém avisa os meus pés que não dá para voltar atrás e a estrada é muito mais. Eu tenho andado só, às vezes ando devagar. Eu sigo o horizonte nessa rota […] e quando a sorte me distrai a minha vida passa no retrovisor”.

E sobre continuar andando e seguir em frente também tem a “Crônicas do bandido” que dá nome ao álbum, que poderia ser trilha de filme, de série, na verdade dá para ser trilha da nossa vida, essa cheia de surpresas e dúvidas. Nessa faixa, que se trata da sétima do disco, sempre me bate uma vontade de chorar, me emociono como se eu tivesse esperado tempo demais para entender vivendo o que nessa música a gente entende em quase três minutos. “Espero a poeira baixar para decidir a direção […] será melhor ficar e me esconder, e me esconder”.

Um disco para corações que queiram se entender, para colocar uma mochila na costa, para tomar decisões adiadas, para olhar o que passou com sabedoria, para entender que a vida é feita de simplicidade, com voz e violão, com amor e letras sinceras. De sinceridade, talento e paixão Elder Effe entende bastante, tudo dentro de apenas um disco. E termino esse texto por aqui ouvindo o barulho gostoso da chuva da faixa “Z” que diz: “Vai passar, você nem vai perceber, a vida queima em dois segundos e o que foi que você fez?”. 

Para ouvir o disco clique aqui.

4 comentários:

  1. Me encantei pela sua escrita. Seu texto tem o estranho efeito de me fazer gostar ainda mais de algo que eu já gostava muito: o disco "As Crônicas do Bandido". Parabéns!

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    1. Muito obrigada, é realmente um disco belissimo (:

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