26/04/2013

Jayme Katarro dos "Delinquentes" revive memórias dos 20 anos do "Rock 24 Horas"


“Vivo o presente. O passado é para relembrar e tirar as lições apenas. Quem vive de passado é museu”.




A 3ª edição o Rock 24 Horas completou essa semana 20 anos. O Teatro Experimental Waldemar Henrique, a cena roqueira da época e um dia fervilhante se juntaram e entraram para a história.

As três edições tiveram bandas como Jolly Joker, Delinquentes, Solano Star, Paradoxo, Metáfora, Orador, Morfeus, Retaliatory, Baby Loydes, Falsos Adeptos, Espargo de Marfim, Insolência Públika, DNA, Mosaico de Ravena, Violetha Púrpura, Tribo, Black Mass e Álibi de Orfeu. O Rock 24 Horas e
ntrou para o Guiness Book como o festival mais longo com atrações ininterruptas do mundo, com cerca de 30 feridos colocou o rock de volta para o underground, ou será que ele nunca saiu de lá?!

Então conversei com o Jayme Katarro da banda Delinquentes e fiz todas as perguntas de uma jovem jornalista que não viveu esse dia, mas gostaria de ter vivido.


Em 1993 na última edição do 24 horas qual as tuas lembranças mais fortes desse dia?

Por incrível que pareça, as minhas impressões mais fortes não tem nada a ver com violência, com destruição, nem com brigas. As pessoas gostam muito de polemizar e mostrar apenas um lado da coisa, o lado ruim. O que lembro com mais clareza nesse dia foi o nosso show (até então um dos shows mais fudidos da banda), com o maior público que já havíamos tocado e com muita gente cantando na beira do palco, e uma roda de pogo insana e bonita de se ver.

Lembro também do show do Retaliatory (que tocou antes de nós, abrindo o festival), com um show arrasador igualmente arrasador. Lembro do Solano Star com seu rock'n roll muito bacana alegrando a galera e de ver e rever muitas pessoas legais. De tantas coisas boas e ruins que aconteceram nesse dia, as lembranças mais fortes são essas.

Concordas em dizer que o episódio de violência ou "descontrole" por parte do público nesse dia colocou a cena roqueira no exílio da cultura paraense (dos teatros)?

Não. Pode ter contribuído. Mas tem que se ver o contexto geral. O rock nacional nessa época estava na mídia de uma forma assustadora. Logo depois houve uma implosão da mesma, com o advento do axé, sertanejo e outros estilos que botaram o rock na moite (esse período de entressafra do rock nacional só veio acabar com a nova onda do rock, com bandas como Planet Hemp, O Rappa, Skank, etc...).

Belém era um reflexo disso tudo. O fechamento das portas do Teatro Waldemar Henrique, por exemplo, prejudicou muito mais a nossa cena, do que qualquer festival que terminou em porradaria. Sem espaços para tocar, muitas bandas foram acabando ou "dando um tempo" para voltarem depois.

20 anos se passaram e parece que o Rock 24 horas ficou em parte esquecido pela mídia especializada, a memória das pessoas é seletiva ou curta na tua opinião?

Se for para se lembrar de coisas ruins é até melhor não lembrar mesmo, hehe. Acho que de tudo se tira uma lição e isso a antiga geração tem o dever de passar para as novas. Quando se faz algum evento (principalmente em locais abertos ou semi-abertos), tem que haver uma segurança dobrada, por exemplo. Não se pode mais brincar com essas coisas. Lembrar que uma briga ou até morte num estádio de futebol vai acontecer sempre, mas se houver uma briguinha sequer num show de rock, a mídia vai cair em cima.

Hoje quando se fala de resistência no rock paraense tu pensas em quê? Ainda existe essa resistência?

Sim. Lógico que há. Os músicos de rock, aliás, são os que mais amam o que fazem. Carregam caixas, dão o seu suor, fazem shows sem editais. Penso que a maioria dos artistas da cidade hoje, nem estariam tocando se estivessem nas mesmas condições dos músicos de rock. Não aguentariam nem um terço.

No subúrbio, em bairros afastados, como Ananindeua, Cidade Nova, Satélite, Icoaraci, a coisa está pegando fogo, com bandas novas e antigas tocando, fazendo barulho. Essas bandas e produtores e resistem porque amam de verdade o que fazem.

Logo depois do Rock 24 horas vimos bandas como Suzana Flag, Johny Rockstar e Madame Saatan surgirem, achas que a cena rock mudou de lá pra cá em estilo, atitude ou mensagem?

Era uma coisa natural que iria acontecer cedo ou tarde. A reciclagem. Alguns nem estavam na cena naquela época. Outros estavam e já trouxeram uma carga de experiência, mesmo como público, daquilo tudo ali. Madame Saatan, Eletrola, Suzana Flag, Caustic, Crashdown, Carmina Burana, Zenite, e várias outras, recomeçaram e deram espaço para milhares de outras que surgiram depois. eventos como o rock 6 horas (do Jolly joker com o Ná Figueredo) e programas como o Balanço do Rock, da Rádio Cultura, contribuíram muito para essa repaginação do rock local.

Beirute está Morta" ou "Almirante Braz", por que a geração de jovens de agora não conhece essas músicas? Achas que não estamos dando conta de eternizar as coisas ou simplesmente os tempos são outros?

É preciso tentar visualizar a época. Não existia internet. Existia a rádio, que transmitia a exaustão músicas como essas e outras, do Álibi de Orfeu, Solano Star... Mas pouquíssimas dessas bandas gravaram discos. Se fores ver, Belém-Pará-Brasil, do Mosaico de Ravena, foi regravado pro músicos da MPB ao samba, porque tiveram registro e era uma música em potencial.

Com a reciclagem do público, a memória enfraquece. Mas tenho certeza que músicas como essas ficaram eternizadas na cabeça de muita gente que hoje está afastada. Ainda digo mais: Hoje vejo que são músicas com um potencial tão grande que não vejo mais hoje, com tudo tão efêmero do jeito que é. Não quero ser prepotente ou arrogante, mas acho que não há um hit sequer hoje em dia que bata esses do passado.

Depois de 20 anos o que ficou e o que partiu pra ti na condição de artista?

A cena mudou bastante, e temos que nos readaptar aos dias atuais. Não dá mais pra brincar. Ou se faz na brincadeira, por diversão, ou se põe a mão no fogo pra ver a coisa ferver mesmo. Naquela época era diversão e farra, mas calcamos nosso nome aos poucos nessa bonita história do rock local. Mas que fique claro: Vivo o presente. O passado é para relembrar e tirar as lições apenas. Quem vive de passado é museu

2 comentários:

  1. Ler essa matéria e imaginar o grande Jayme contando essa história, é algo no mínimo, impagável, digamos assim... Me faz até querer ter estado lá. O que, infelizmente, não aconteceu.


    "Sim. Lógico que há. Os músicos de rock, aliás, são os que mais amam o que fazem. Carregam caixas, dão o seu suor, fazem shows sem editais. Penso que a maioria dos artistas da cidade hoje, nem estariam tocando se estivessem nas mesmas condições dos músicos de rock. Não aguentariam nem um terço."

    O bacana é esse, como ele disse. Pessoas ainda dão seu sangue por suas bandas. Muitas vezes a troco de nada(falando sobre dinheiro), apenas pela pura paixão pela música.
    Chega a ser um tanto revoltante ver o quanto a cena musical da cidade se fechou pro Rock...

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  2. Que legal ler esta entrevista com o Jayme... me trouxe muitas lembrança da época de minha adolescência, da praça da republica e da cena roqueira da Mangueirosa! mesmo moleque, tive a grata felicidade de ir aos 2 últimos Rock 24 Horas e essas lembranças são muito legais!!!

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