02/05/2013

Madame Saatan, 10 anos de rock pulsante, ainda bem.




Ultimamente bandas que sempre me acompanharam estão fazendo 10 anos de estrada, uma década é sempre um ciclo de renovação, é um marco, é a contagem redonda de realizações, de mudanças, é o amor feito na escada com paixão. Acredito nas palavras do grande Jayme Katarro dos Delinquentes quando ele diz que o passado não causa nele nostalgia, mas desperta o sentimento de que lições foram aprendidas, e resta sermos gratos por isso. 

Não, não quero voltar no tempo, quero o hoje, vivi intensamente até aqui e posso dizer que sim, que vi shows de rock de verdade, e não foi preciso ir muito longe, o show mais marcante da minha vida foi o de uma banda paraense, você acredita nisso leitor?! Sim, é possível uma banda conseguir entrar pelo teu ouvido e fazer sangrar tua alma, se chama "Madame Saatan".

Foi exatamente em 2006 que me mudei para Belém, eu tinha uma televisão, uma rede e uma mala. Eram poucos os shows de rock em Santarém, a cena se dividia entre punk e metal, mas faltavam lugares para as bandas tocarem. Cheguei por aqui e o primeiro show que vi foi do Madame Saatan, era no Memorial dos Povos, o ingresso era um quilo de alimento, o que foi ótimo porque naquela época eu era muito mais lisa do que sou hoje. 

Não lembro das outras bandas, fiz um esforço enquanto escrevia esse texto, mas só lembro do show do Madame. Fiquei perto da caixa de som, de repente ela veio andando com passos firmes de pantera, com botas de salto pretas, com uma meia arrastão e um vestido meio dominatrix, e sorriu. sorriu com os cabelos encaracolados e um batom forte, Samm captava o público e ele a engolia de admiração não só pela beleza, mas pelo talento vocal, que sempre foi incrível.

Começaram a primeira música e os gritos se misturavam com a guitarra agressiva. 

Eu me misturei com as outras pessoas, virei o copão de cerveja com uma rapidez de Macgayver. Pensei e fiz uma prece rápida por estar ali, um sonho de roqueira interiorana. Nunca, nunca mesmo, tinha tido contato com uma banda como Madame Saatan, com letras tão profundas e fortes, me senti pronta para iniciar um novo ciclo, me senti pulsante, não dá para esquecer. Suei tudo que tinha para suar, percebi que ali estavam seguidores fieis, como se eles fosse uma religião, um mantra, um guia. Até hoje os shows ainda são assim. Acho que tive a mesma sensação de estar com febre, só que de uma forma boa. 

Continuo febril.

Fui comprando os discos, indo para quase todos os shows aqui em Belém, tive momentos especiais no Festival Se Rasgum de ter feito um trabalho freela na véspera só para ter grana para ver a banda. Sou bobona e sempre choro cantando trechos como: "seus pecados são mais você e esse brilho todo são riscos e coisas que nunca entendemos".

Quando lançaram o clipe de "Vela" o Círio ganhou um significado diferente para mim, a música conseguiu ir bem além do que realmente é a festividade. Sempre me encantei pelo sincretismo, e a canção retoma essa Belém cheia de nuances e crenças que se misturam e se afastam ao mesmo tempo. Posteriormente um dos meus melhores amigos, Enderson Oliveira, fez um TCC analisando a música.

Um trecho interessante do trabalho dele sempre me emociona: “Vela” trata do Círio (mesmo sem uma vez sequer usar a palavra “Círio”), mas não somente de sua procissão ou de seus romeiros: vai além, apresenta reflexões que ainda não tinham sido feitas em outra música que trate do mesmo assunto e mostra muito do que quem participa da procissão já conhece, sabe, vive. Ao que parece, se celebra, acima de tudo, um mundo em que a cultura e o indivíduo não são mais “unos”. Somos vários em um. Somos dionisíacos e apolíneos. Acendemos velas pra Deus e o Diabo, bebemos por eles e com eles.

Esses e outros aspectos dia a dia reforçam meu pensamento de que essa banda não é apenas mais uma banda de rock, ela é o símbolo de uma geração paraense que foge do lugar comum, que quer o peso das guitarras e letras sugadoras, que te levam para um portal onde tudo é intenso e único. Madame Saatan é uma forma de se expressar, dez anos eles comemoram, mas quem comemora mais somos nós.

"A mesma hora escura que dilui a gente [...] teus olhos baixos em minha direção com certa força".


4 comentários:

  1. Madame Saatan faz parte do grupo de bandas que fazem a trilha sonora da minha vida. Muito massa acompanhar esse trabalho lindão ao longo de 10 anos e por muitos outros que virão!

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  2. Madame Saatan, Suzana Flag e JOhny RockStar. Eles tocaram no mesmo dia, eu tava lá e foi foda! Muito rock e caipirinha de metro. SD10 cena!

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  3. Suas análises sobre música são muito boas, Monique. Parabéns

    Toni Cavalcante

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