24/06/2013

Luciana e a morte de copo americano



Luciana acordou assustada, eram quase duas da manhã. Ela já sabia que o sono perdido, cortado pela metade, nem sempre consegue ser recuperado em seguida. Antes o quarto que parecia um breu começou a clarear, ou talvez fossem as pupilas que estavam colaborando. No teto o ventilador girava forte e a sensação de Luciana era de que a qualquer momento ele cairia ainda em movimento a retalhando inteira, e que nesses poucos segundos, ela saberia finalmente como é morrer.

Frequentemente lhe passavam pela cabeça tragédias, ela imaginava com riqueza de detalhes como seria atropelada por um ônibus ou como sem querer escorregaria no banheiro e bateria com a cabeça no vaso sanitário e de forma ridícula se daria sua morte. Depois Luciana seguia com os pensamentos mórbidos tentando desvendar quem estaria em seu velório, quem choraria mais, quem ficaria em choque e quem nem flor deixaria.

E era sempre assim, acordava sobressaltada na madrugada e não conseguia mais pregar os olhos. Não era pessimismo e nem tendência suicida, era apenas imaginação sombria. Luciana sentia facas espetando o coração, rebobinava toda sua vida enquanto olhava para o teto, lembrava das refeições maravilhosas que teve enquanto viajou para Cuiabá, estava sempre conectada com o que passou. Pobre menina que não sabia ter tesão com o presente.

Não se sentia feliz no agora, sua condição perfeita estava no passado e no futuro, mas nesse dilema havia sempre o problema de que o futuro uma hora seria presente e quando isso acontecesse um coração triste era o que lhe restaria.



Foi em uma noite dessas que esbaforida acordou sentindo dores, eram dores fortes que começavam na barriga e dava um tremor estranho nos pés, resolveu levantar e pegar um copo d´água. Encheu o copo americano até a boca e bebeu tudo bem rápido, como se a água tivesse o poder de cessar as dores e lavar o medo. Reparou que o copo cabia certinho nas mãos e começou a chorar.

Entendeu que todas as soluções para as dores estavam naquele copo, que a força com que o segurava refletia sua vontade pela vida, era tão óbvio que tudo que ela precisava estava a um passo de sua própria vontade. Sentiu nesse mesmo instante um liquido quente escorrendo por entre suas pernas e o piso que era meio branco e cinza foi ficando cheio de pontos vermelhos, meio assustada percebeu que escorria também pelos seios o mesmo liquido, era sangue que saía pela vagina, pelos ouvidos.


Pensou em ligar para a emergência, chamar algum vizinho, mas preferiu pensar que o sono tinha chegado finalmente nas madrugadas e aquilo tudo era parte de um pesadelo, então já que era apenas uma ilusão não teria motivos para pânico. Deitou na cama, colocou um dos lençóis coladinho ao lado direito do rosto e em posição fetal voltou para o passado. Sem saber que era assim a morte, partiu achando que sonhava, porque atropelamentos não estavam no roteiro de Luciana.

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