19/06/2013

Sobre o Movimento Belém Livre e muitas coisas na cabeça

Foto: Renata Franco

A tia da minha melhor amiga no hospital, eu virada sem dormir, ansiosa. Mesmo assim nos encontramos perto do Museu Emilio Goeldi e fomos caminhando até chegar no Mercado de São Brás às 16h, ainda com um sol quente rachando a cabeça, não tinha reclamação e o número de pessoas já me assustava para uma segunda-feira. Elas vinham de várias direções, com visuais e histórias diferentes. Era como um prato exótico, com misturas inusitadas.
Na grama algumas pintavam cartazes, outras estocavam água na mochila, outros debatiam porque estavam ali, algumas caladas observando. Gente de partido, outros sem partido algum. Quando fomos às 18h rumo a Avenida Almirante Barroso éramos 10 mil ou mais. Estávamos um caldo grosso e fervilhando.
Não posso dizer que a sensação foi de “dever cumprido”, porque essa frase é quando se chega ao ponto final, e certamente nem chegamos perto dele, nos falta muito a percorrer. Também não posso dizer que os policiais foram nossos parceiros, eles apenas fizeram o que o dever manda, o que foi negociado, isso não é mudança, é negociação, os confetes são desnecessários.
Também não posso dizer que temos de nos vangloriar pelo “exemplo de civilidade” nas ruas, isso não é uma disputa de revolta misturada com egos, esse “isso” que estamos vivendo é algo maior. Que bom que foi pacifico nosso grito pelas ruas, mas não usemos isso como discurso de superioridade diante dos manifestantes de outros lugares. Somos eles e eles são nossa persona. E não, não precisamos de violência para mudar as coisas.
As bandeiras de partido na manifestação receberam como resposta: SEM PARTIDO SEM PARTIDO! Se trata de uma reação (talvez resposta, já que reação não é a palavra mais amada por agora) a essa estrutura que nos acompanha até aqui. Vamos amigos dos partidos para as ruas, mas como humanos que somos, sem cor, sem partido, sem cargo, mas não há nada de mal se expressar com suas camisas. Porém sem oportunismo, a causa é coletiva.
Os políticos que hoje estão de lados opostos um dia foram jovens e estiveram lado a lado lutando por suas ideias, consideradas levianas e viajantes. Então o partidarismo fez as pessoas levantarem bandeiras para provar que lado governava melhor. Tudo se confundiu de vez, perdemos o foco. Sim, perdemos o foco no ser humano, estamos ainda na caverna do Platão, tão atual, não é mesmo? Crendo e se alimentando de sombras.
Ir para as ruas foi não só para os belenenses, mas para todos os brasileiros, o grito da insatisfação, a voz do “oi, estou aqui”. É confuso mesmo para os governantes de todos esses lugares ouvirem que existem organizadores, quem sabe mediadores, mas não há representatividade única, que todo mundo se representa e mesmo assim não se trata nem sequer de socialismo. É igualmente complicado não ter um partido tomando a frente das coisas e que tudo caminha por si só de uma certa ótica. No fundo sabemos onde essas manifestações vão chegar, virão mudanças, gente brigando pelo que tem direito. Certamente sou contra aos que apontam o resultado final disso tudo com a palavra VAZIO. Aqui por Belém é tão grande a mobilização que já foram criados por outros grupos uma avalanche de eventos chamando a população para protestar depois dessa primeira catarse coletiva e grito de expressão.
Esse sentimento de que chegaremos no vazio é o enorme apego a estrutura que estamos acostumados, que nos foi dada desde o saboroso leite do peito da nossa mãe. A luta de jovens não é nova, mas a forma é sim saída do forno. Antes víamos o facebook como ferramenta maravilhosa, mas não tínhamos experimentado seu real poder, e agora sabemos para o que ele realmente serve. Não se trata de querer viver em uma sociedade com ausência de hierarquias ou instalar uma nova forma de governo. No fundo todo esse #vemprarua se trata de uma nova forma de lidar com os problemas, com as insatisfações.
Existe na comoção com os episódios de SP um ar de preciso parar de ter medo de falar o que penso e o que quero, preciso refletir, preciso olhar para o mundo de forma mais real e aprender que viver dignamente é mais que ter um quintal frutífero. E o quintal do outro? Desculpa lhe dizer, mas se o mundo explodir você explode também.
Mudar comportamentos, criar novos hábitos, é disso que se trata também, além de pautas concretas. E isso não chega nem perto de ser vazio. Ir para as ruas é parte do processo, uma expressiva parte, mas os problemas sempre existirão e a motivação não pode morrer.
Votar, logo vai chegar o momento de votar novamente e esse é um momento de votar como nunca se votou antes, isso inclui também anular se você quiser, mas esse é um outro debate.
Mais de 10 mil pessoas na rua em Belém bradando por educação, transporte e com memória do que nunca lhes agradou. Belém, terra bonita do carimbó, do rock, da guitarrada e da chuva das três. Nunca vi Belcity tão verdadeira, das janelas com toalhas ou lençóis brancos em apoio ao mar de gente que passava, e não, não era Círio. Foi bonito, mas a beleza também voa e passa rápido, precisamos aumentar esse fogo e aquecer o tucupi, não por apenas um mês, mas para sempre, até quando durar a vida.
Aos que dizem que ir às ruas nada muda eu brado o contrário, muda sim. É a vez de perceber que a voz paternalista não convence mais, que o “Contra Plongée” agora é do povo, que está querendo falar outra língua, que estão escrevendo agora, na marra mesmo, já que não temos outras alternativas.
Isso também serve para a mídia, que precisa rever sua forma de atuação e como ficou presa a patrocinadores ou empresários que distorcem tudo e fazem o que não merece ser chamado de jornalismo em aspecto algum, já basta de imitações do emblemático Foster Kane, que Orson Welles nos deixou com uma das obras primas do cinema. Porém, é necessário respeitar o profissional, como não vimos no episódio Caco Barcellos. Deveriam gritar: Caco sai da Globo e vem pra rua! (risos).
E agora que baixaram as tarifas em SP e RJ, que venham novas pautas, assim vamos construir algo horizontal, que não será vazio e nem será baseado em vandalismo.

Na onda da paz surge o vandalismo, e como resolver a vontade cega de depredar e acabar com tudo sem a estrutura de Estado e a cultura repressiva que conhecemos?! Lutar por direitos também pode ter muita marca e sangue no final, gostaria que não fosse assim. Se antes eram as pessoas que temiam os politicos, agora são os politicos que estão cheios de medo. Brasil, qual é a tua cara agora?! Nem sei mais. 

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