05/11/2013

"Feras Míticas" do Garotas Suecas, um disco para visitar mundos paralelos.


“Me and my friends we’re building a whole new place for us to live”.
“Eu só queria saber como vai ser o primeiro dia que eu vou passar com você”.

Confesso que demorou. A demora foi tanto em escrever algo por aqui quanto escrever sobre esse disco, que não é qualquer lançamento, nem qualquer som, que você lê algum jornalista elogiando em alguma coluna musical famosa.
É um disco feito para sair do planeta Terra, para pessoas que se jogam, que embarcam em espontaneidade e que apreciam os detalhes, os beijos de despedidas, os instrumentos de sopro, o teclado, para quem sabe que rock vai muito além da estética do sujo e do podemos fazer isso de qualquer maneira.

Ao mesmo tempo que “Feras Míticas” tem uma atmosfera interiorana ele é, também, urbano. No começo da faixa de abertura“Manchetes da Solidão” existe uma inquietação  demonstrada por um solo de guitarra rápido, que logo desemboca em um instrumental calmo, que carrega frases como “Não choro, não tento mais esconder, que eu também sou moinho girando sozinho, pode crer”.
Se Cartola cantava sobre o mundo ser moinho e seu poder em triturar e dissolver sonhos, o Garotas Suecas fala nessa canção sobre na contemporaneidade o próprio homem ser moinho. Nós mesmos solitários como somos nos trituramos e ao mesmo tempo seguimos em busca de nosso lugar. A personagem da canção mostra esperança ao reconhecer a sua e a condição do mundo, sim, somos sós.

“New Country”, uma das minhas favoritas do álbum vem quebrando o clima da primeira, e traz um Garotas Suecas amadurecido, que eu poderia jurar se tratar de outra banda, completamente diferente do que fizeram até aqui. E é isso, se trata mesmo de uma nova banda, constatei isso de faixa em faixa como o ouvinte do menos ao mais atento constatará. A canção tem um gosto de música Black, com muito groove e back vocals femininos que fazem dela um R&B fina flor.
Em “Bucolismo” que o baterista da banda se torna vocalista – antes é importante dizer que o disco todo mistura vocais e traz diferentes participações e “vibes”, mostrando que a forma de criar foi realmente coletiva e criativa – o conceito de bucolismo se confunde, se o que no passado queríamos era o “fugere urbem”, agora existe a inquietação de estar em um lugar em que o tempo corre devagar, não se quer fugir, se quer viver o ambiente urbano, com toda sua (des)construção.

“Pode Acontecer” é uma linda balada, que já faz parte das minhas trilhas amorosas e sobre os debates infinitos sobre as surpresas que nos reservam as grandes paixões. Não tem como não se apaixonar pela voz de Irina, a Iri. E a letra nada mais que verdadeira e certeira aos corações mais fracos ou desavisados.

Kid Congo Powers, o fundador do The Cramps, faz uma participação em “L.A Disco”, que chega com uma pegada mais setentista, que é divertida, mas não é a melhor do disco.

A música “Bicho” e a inédita feita pelos Titãs “Charles Chacal” respondem a minha enorme suspeita de que Garotas Suecas tem um clima rock and roll com uma dose caralhenta de Mutantes e Tropicália, desde a evocação de feras, mitos e bichos, até as letras e sons com misturas brasileiras, estranhas e progressivas. Uma mistura de Bat Macumba com Bichos Escrotos, um pouco mais domado, é claro, e com muito alucinógeno.
Isso me fez lembrar que a banda já tinha feito uma versão de Bat Macumba, que sinceramente é linda, aqui ó >>  https://www.youtube.com/watch?v=fNFmh9Jq9h8

Devendra Banhart, Donovan e Elliott Smitt, assim de cara “Roots Are For Trees” me soprou esses nomes na mente com sua poesia, doçura e melancolia. “Raízes são para árvores, eu não pertenço a esse lugar”. Sobre deixar ir, deixar voar, sobre não estar, sobre não possuir, sobre deixar correr, sobre pairar, sobre apenas viver.
E se o disco começa agitado e urbano, as feras aqui encontraram sua paz, seu sossego, e finalmente estão captando as respostas, e as minhas se resumem a dar o play novamente nesse disco, que é no mínimo, foda.

Para baixar, ouvir e fuçar: http://www.garotassuecas.com/

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