12/02/2014

“Ditadura da Felicidade” e um Aeroplano que surpreende




“Essa ditadura da felicidade, todo mundo sorrindo mesmo sem vontade”.


"Um atrás do outro
Os amigos vão embora
Não há tempo pra se arrepender
Nossa geração é um DOC
Um episódio na memória
Mas ninguém vai esquecer"

Durante o tempo de vida do Aeroplano algumas músicas como “Não se vá”, “Pra você solidão” ou “Estou bem mesmo sem você” grudaram na nossa cabeça de forma monstruosa, mas desde o Voyage, o disco que antecede “Ditadura da Felicidade” lançado hoje (13.02.14), a pergunta que me fazia como fã e também como ouvinte de bandas de rock era: qual caminho musical a Aeroplano realmente deseja?

A indagação veio quando ouvi “Vermelho que é rosa”, a melhor faixa de Voyage na minha opinião, por mostrar que a banda tava começando a querer se arriscar em novos sons, e a gente sabe que se arriscar não é para todo mundo, tem que se garantir nas transições.

Foram muitas músicas sobre amor que embalaram os meus romances e de muitos outros fãs, mas aqueles adolescentes que tinham como o fim do mundo um pé na bunda, cresceram. E esperávamos que a banda continuasse cantando sobre nós, aqueles que vieram amargurados dos anos 90, com os olhos de quem consegue perceber que a vida é muito mais que um emaranhado de romances que perderam o fôlego.

As primeiras audições de “Ditadura da Felicidade” me deram a certeza de que eles tinham pela primeira vez se encontrado totalmente, ao contrário do Voyage que parece que são dois bons discos em um, esse tem um fio condutor bem delimitado, a reflexão sobre si mesmo, sobre quem está próximo, sobre a vida, sobre o caminho a ser percorrido, sobre o que corta esse caminhar. É um disco que presenteia o público com o melhor da Aeroplano e vai conseguir construir novos fãs.

“Pra cada dor haverá proibição, o nosso sofrimento não terá perdão”, profetiza e constata a faixa homônima do disco, não é sobre a vontade de ser triste, mas uma critica a obrigatoriedade de nos mostrarmos sempre felizes, ao falar sobre uma falta de lugar para a solidão a letra de Eric Alvarenga retoma um debate antigo que sempre tive com alguns conhecidos, a solidão não é ruim, estar só não é ser só. Se deixamos de apreciar nossa própria companhia como queremos isso dos outros? Estamos tão carentes assim? E aqueles olhares assustados quando você diz que foi ao cinema sozinha? “Poxa amiga você está bem? Me chama da próxima vez que dou um jeito de ir”. Apenas PAREM!

E a faixa seguinte, “Rabugem”, complementa o debate: “A humanidade é barulhenta, na felicidade que inventa”. A propósito gostei da bateria dessa música, tão impaciente quanto o eu lírico da história. “Em defesa da família” fala sobre a mudança das relações humanas, dos padrões afetivos e familiares. E a tal ditadura da felicidade conduziu como e com quem devíamos nos relacionar, porém as famílias têm estruturas diferentes e os laços que antes pareciam estranhos, precisaram e precisam ser entendidos com naturalidade. É como diz a canção: “E já não importa se é tradicional ou não”. E todas as mudanças de relacionamento entre nós e quanto a esse sentimento cíclico de passagem do tempo, prefiro pular para a faixa 5 de nome “11”, letra certeira de Diego Fadul, que nos questiona “Pra onde estamos indo?” e responde “É sempre igual”.

Caras não façam isso com meu coração, ou melhor, façam!

Deu uma mareada nos olhos essa música, pop como o Aero sabe ser e sensivelmente direto. “Nosso destino é o chão”, esse e outros trechos que falam sobre a partida de amigos e memórias que nunca serão esquecidas fez com que eu voltasse no tempo e quisesse abraçar todos os meus amigos, os de Curitiba, Rio, São Paulo, Portugal, Santarém e os daqui, que o tempo afastou de mim. Uma faixa um tanto quanto melancólica e niilista, sobre o tempo eternamente se repetindo e o culto das memórias como melhor tempo. Acredite, a gente vai envelhecendo e dá saudade, dá muita saudade, mas a gente segue.



Assim vem “Bazar”, mais otimista nessa história toda de procurar a felicidade, com trechos assim: Tempo de arrumar tudo que está a entulhar os meus sentidos, reaproveitar formas de sentir, outra chance pro que há ao meu redor”. Com foco no agora e no futuro, e que a vida se renova, como se renovam as bandas, as músicas, os discos, o público, a vida, o amor, os passos. Além disso, a música flui bem nos ouvidos, dá vontade de deixar repetindo.

“Blasé” achei muito boa em letra, falando sobre pessoas que se acham cults, tendo a resposta de todos os problemas do mundo, sem fazer nada, é claro. Mas achei fraca na parte instrumental, levou o título muito a sério e soou um pouco apática e reta. “Em si” uma baladinha legal, um pouco mais sentimental, particularmente não é uma das minhas favoritas do álbum, mas ainda acho que pra essa música é tudo o momento, tenho uma inclinação a me apaixonar com ela pelo tempo, principalmente pelo solo de guitarra.

Vai parecer estranho mas quando ouvi a faixa “Paz” lembrei um pouco do Elder Effe e também de algumas canções do Stereoscope, que música bonita gente! E esse efeito no vocal ficou muito bom, sem parecer forçado, mais uma vez gostei muito da bateria. E o que me dói mais é ver que estão confundindo paz com tanques de guerra e policiais nas ruas, mas pelo medo de não voltar mais”, assim a Aeroplano vai mapeando cada aspecto dessa sociedade da “Ditadura da Felicidade”, conceito trabalhado desde a capa com referências até do filme Donnie Darko, que fala em parte sobre esse desconforto do tempo e das relações. Belo trabalho de Talitha Lobato.


Nós podemos viver tudo
Vamos sorrir e depois chorar
Não tire desse olhar
Nenhuma gota
Deixe derramar
A dor que se solta
Que obrigação
Toda é essa
De aterrissar
Com os pés no chão?

“Ginastas” encerra o disco como conclusão de um pensamento sobre felicidade, sobre vida. Dá pra gente viver sem essa obrigação da felicidade plena, porque ela simplesmente não existe, temos que ir nesse malabarismo diário, com a certeza de que as dores também virão e elas fazem parte do que somos, que não são só os sorrisos que ensinam.

E sobre a faixa que ainda não falei “Drogaditos”, com certeza uma das mais divertidas desse trabalho, fala sobre algo que a gente não costuma pensar, esses remédios que nós da geração estressada tomamos. Gente com insônia, dores de cabeça excessivas, e ficam se medicando, até as relações com as drogas mudaram (risos). Além do que é literal nisso, a canção também fala de uma sociedade que finge estar feliz e no fundo não está, isso me lembra alguns amigos jornalistas que se entopem de remédios. “A vida é mesmo assim, é só tomar Dramin.”

É muito catártico escrever sobre essa banda, afinal, esse blog começou com um texto sobre eles.

Não sei se temos resposta para a felicidade, mas um ótimo disco que faz a gente navegar por essas reflexões, isso sim, acabamos de ganhar. “Ditadura da Felicidade”, que feliz ver o Aeroplano surpreendendo (mais uma vez).


Para ouvir e baixar: www.aeroplano.mus.br 


Um comentário:

  1. Nossa! Gostei muito da resenha do disco da Aeroplano feita por você. Um quase faixa-a-faixa muito bem explicado. Também gostei muito do disco. Sou do interior do Pará, de Capitão Poço, toco em uma banda aqui também, fazemos um festival aqui todo mês de julho e bandas como a Aeroplano e das antigas como Caustic, Suzanna e tantas outras nos influenciaram e fazemos música de final de semana justamente por causa deles e de várias outras.
    Parafraseando o que eles cantam "Nossa geração é um DOC, um "emptysódio" na memória, mas ninguém vai esquecer.
    Era isso que eu ouvia antes de saber como a letra realmente é. Mas não deixa de ser também não? rs
    Obrigado.

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