07/02/2014

Qual Gallagher merece um abraço?



A relação de amor e ódio é separada por uma linha tênue, pelo menos parte do meu gosto musical foi pautado dessa forma. Afrouxa o amor daqui e surge o ódio dali. Para as crias dos anos 90, nem todas, havia a escolha de ser Blur ou Oasis, mas como eu era da galera do meio as inquietações eram outras.

Como conseguir gostar igualmente dos irmãos Gallagher? Eu tinha mesmo que escolher? Parecia uma grande bobagem essa pressão de que lado ficar. Seguia sem escolher se eu era violão de madeira ou mãos para trás. E ficava mal com cada desentendimento, com cada agressão entre eles.

Ao mesmo tempo era muito bom ser fã de uma banda que tinha músicas como “Who Feels Love”, “I’m Outta Time”, “Songbird”, “Let There Be Love” e ao mesmo tempo apresentava canções como “Be Here Now” e “Some Might Say”. Oasis nunca foi realmente sobre vários caras fazendo música, pelo menos não para mim.

Era sobre dualidade, sobre dois irmãos, com gênios e preferências musicais diferentes, que juntos conseguiam ser uma banda rock and roll, que se permitia amar, ser pop e  mostrar que hits nunca foram ruins, afinal isso é invenção de quem não quer cantar junto, de quem quer ser o único fã, de gente chata. Foi através dos hits que conheci a maior parte dos meus artistas favoritos, inclusive alguns ouvi pela primeira vez na MTV no Lab, lembram desse programa?

Depois da febre Oasis, comecei a ouvir outras coisas como Stone Roses e Melvins (nada a ver uma coisa com a outra, eu sei), acabei me afastando um pouco dos Gallaghers, até que ouvi “The Importance Of Being Idle”, parecia coisa de ópera rock, a estética nova dos irmãos, a música soando em parte como marcha fúnebre e em parte com parada musical alegre, tinha muito piano e Deus sabe como me derreto com um maldito piano no rock. Aquilo me trouxe de volta e permaneci acompanhando fielmente até o Dig Out Your Soul, que julgo ser a melhor despedida possível, tá com certeza na lista dos meus favoritos.

Tive uma enorme dificuldade de consumir os trabalhos solos dos dois depois que a banda acabou. Ainda era refém da nostalgia e do medo deles fazerem merda. Demorei para ouvir os trabalhos, estava fugindo do estrago da minha expectativa, que já era baixa.

O Liam formou o Beady Eye como vocês sabem, e o primeiro disco (aquele com a garotinha montada no crocodilo) veio com umas faixas bem chatas, “Millionaire” por exemplo parece uma mistura de Lemonheads com música country, “Beatles and Stones” achei bem reta também, soou como o disco especial do John Lennon, o “Rock n Roll” de 75, a diferença é que o Lennon tinha mais vigor. Liam ficou se segurando nesse disco, mas tem boas faixas que valem a audição como “Wind Up Dream” e “The Roller”.

Já que estou narrando a experiência musical na ordem de audição, é necessário que divida com vocês a forma bizarra que ouvi o “High Flying Birds” do Noel Gallagher. É, foi na rádio TAM, eu tava indo visitar meus pais nas férias e como sempre pedi um fone para aeromoça (já tenho coleção desses fones, apesar deles serem bem ruins e deixarem as músicas super agudas... sempre levem seus headphones para viagens, questão de felicidade) pluguei e tava tocando na rádio “rock” o disco inteiro com entrevista do Noel entre uma canção e outra.

Fui gostando mais do disco a cada faixa, elas eram muito parecidas, mas não importava, era como se fosse uma música enorme que tinha algumas variações, e mesmo desse modo pega o ouvinte de jeito. Pelo menos, aqueles que tem uma queda pelas influências de folk e pop do Noel, tem motivo de sobra para amar.

“Everybody’s On The Run” é música para colocar a cabeça no mundo das ideias, para deixar os pensamentos entrarem e saírem. Foram muitas as vezes que fui andando na rua ouvindo, dá ritmo aos meus passos, nem corro e nem ando devagar. Além da voz do Noel, que me agrada muito, gosto da forma como as letras rimam, como parecem redondas, as músicas grudam rápido, contam histórias de homens que poderiam ser um de nós, é simples e ao mesmo tempo bem elaborado. Tem aquilo que eu mais gostava no Oasis, a capacidade de ser pop, sem ser Jovem Pan (rs).

Noel presenteia os ouvintes com melodias felizes, gostosas, mas ao mesmo tempo, um pouco mais calejado e triste, ele mostra canções festivas que cantam tristeza como “The Death of You and Me”, a minha favorita do disco, pela letra, pelo solo, por tudo.

Depois de ficar no repeat do Noel chegou a hora de sacar o novo do Beady Eye, o tal BE. Tapa na minha maldita cara, o que eu tinha certeza que seria um fiasco me surpreendeu em tudo, esse sim é o disco que mostra a que veio Liam Gallagher. O álbum começa com “Flick On The Finger”, que me fez esquecer o fiasco do primeiro. “Second Bite Of The Apple”, “Soon Come Tomorrow”, “I’m Justing Saying” e “Shine a Light”já são ótimos motivos para ouvir o “BE”.

É basicamente uma canção excelente atrás da outra, algumas mais Stone Roses, outras Violent Femmes e outras experimentais como “Dreaming Of Some Space”, que é toda ao contrário, invocando todas as lendas de demônios e mensagens subliminares, que na adolescência a gente amava.

Chego ao fim do texto e dos discos sem a certeza se devo escolher um ou outro, se devo misturar eles na playlist. A única certeza que tenho é que há uma parte de mim que só encontra expressão suficiente nos vocais detonados do Liam e outra que necessita da calmaria do Noel. Esses argumentos são suficientes para que eu permaneça sem escolher, ao menos por enquanto. E vocês?


Um comentário:

  1. Escutei praticamente todas músicas dos 2 grupos mas gostei de poucas. Não que sejam ruins porém nada como o oasis...Legal o blog, acabei descobri totalmente por acaso :)

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